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Num cenário em que a globalização é a ordenadora das relações econômicas, políticas e humanas, a preservação das identidades também desponta como um elemento fundamental na contemporaneidade. Embora estejamos sob a égide de uma sociedade interligada pelos aparatos tecnológicos e fluidez de informação, as diversidades são valorizadas e compreendidas em toda a sua magnitude.
Esse entendimento norteia a produção e a difusão de conhecimento científico entre as nações africanas e a diáspora, como pólo catalisador de uma reconexão pós-escravista. Ganhou força em meados do século 20 por meio das correntes pan-africanista e negritude, em que intelectuais africanos e da diáspora se detiveram na recuperação da memória do africano, no desprendimento dos resquícios do colonialismo e na luta contra o racismo.
Tais vertentes estiveram vinculadas com as lutas pela independência das nações africanas e ruptura com os séculos de dominação, a fim de reerguer o continente africano com todas as potencialidades existentes antes do desmantelamento impulsionado pelo racismo a serviço do capitalismo mercantilista. No Brasil, a ressonância se desencadeou na luta do movimento negro, denunciante de uma situação de harmonia entre os diferentes grupos étnico-raciais por localizar no racismo uma ferramenta a serviço da extração das riquezas das colônias americanas, relegando à opressão gerações de homens e mulheres descendentes de africanos.
Um dos momentos para apontar novos horizontes e as contribuições para reversão desse quadro se dá na 2ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora, em curso em Salvador. Inspirados pelo tema A Diáspora e o Renascimento Africano, cerca de mil intelectuais e ativistas políticos e culturais se dedicam à reflexão de temas globais.
Detentor de uma posição estratégica nessa discussão, por ser a segunda nação no mundo em população negra e inovar ao criar um órgão para tratar dessa temática, através da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, o Brasil reafirmará seu compromisso com a eliminação do racismo e da discriminação racial, seu interesse e solidariedade para reconstrução política e econômica das nações africanas.
Nos últimos anos, o Estado brasileiro vem firmando uma série de acordos bilaterais nas áreas de saúde, educação, geração de trabalho e renda, ciência e tecnologia, além de ter se mostrado articulador importante em grupos como a Comissão de Países de Língua Portuguesa (CPLP), assumindo na agenda política internacional o componente racial como um dos pontos decisivos para uma inserção desenvolvimentista no contexto global.
Matilde Ribeiro, 45 anos, mestre em serviço social pela PUC-SP, é secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República. |