A mobilização dos jornalistas profissionais afro-brasileiros ganhou reforço com a criação da Cojira-DF, oficialmente instituída na última segunda-feira (27), em solenidade no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, em Brasília. Com um grupo inicial composto por 16 profissionais, a Cojira-DF pretende ser mais um instrumento de aprofundamento do debate imprensa e relações raciais, catalisação de conteúdo através da produção de audiovisuais e reciclagem profissional.
Somando-se ao trabalho desenvolvido pela Cojira-Rio, Cojira-São Paulo e o Núcleo dos Jornalistas Afro-brasileiros do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul, a Cojira-DF reafirmou seu objetivo: unir-se aos demais grupos e dedicar-se à causa do anti-racismo e da promoção da igualdade racial, como apontou o mestre de cerimônias, o jornalista Fausto José.
A estrofe “Se poder é bom, negro quer poder”, do Hino do MNU (Movimento Negro Unificado), emocionou a platéia na voz da cantora Nanã Matos, cujo canto deu início à cerimônia. O autor do hino, Nelson Inocêncio – ativista do movimento negro e integrante do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial), estava presente ao evento.
Missão da Cojira-DF
Segundo o porta-voz do grupo, o jornalista Sionei Leão, a Cojira-DF surge para “dispor, a favor da causa [igualdade racial], os conhecimentos técnicos [dos jornalistas]. Estamos num momento em que a imprensa precisa de um contraponto”, disse.
Ao dar boas-vindas e os votos de vida longa à Cojira-DF, o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, Romário Schettino, foi solidário à demanda de constituição de grupo vinculado à entidade, desde o começo das articulações em maio passado. Schettino lembrou que a luta contra o racismo envolve muitas pessoas, destacando entre os presentes a jornalista negra Jacira Silva, que já presidiu a entidade. “Esse trabalho busca uma mudança de comportamento das empresas jornalísticas brasileiras e na sociedade brasileira como um todo. É preciso convencê-las [referindo-se às empresas jornalísticas] de que é preciso um novo olhar sobre a questão racial. Precisamos ampliar a luta pela igualdade racial no Brasil”, afirmou o presidente do sindicato.
Histórias de vida
Das muitas histórias que jornalistas contam, o integrante da Cojira-SP Paulo Lima dividiu com o público uma passagem de sua vida profissional com o escritor Solano Trindade, em que o sábio ressaltava como grande mérito o fato de ter feito e produzido obras, independente da valorização da sua produção. Lima comentou que o desemprego assola a categoria como um todo e o jornalista enfrenta mais dificuldades de acesso ao mercado de trabalho. Ele mencionou ainda o trabalho em rede relatado pelo jornalista Bob Butler, presidente da Associação Nacional dos Jornalistas Negros dos Estados Unidos – em visita ao Brasil no mês de maio, quando realizou palestras em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador - como alternativa articulação entre os jornalistas e comunicadores engajados na temática étnico-racial.
Pelo Núcleo de Jornalistas Afro-brasileiros do RS, a jornalista Vera Daisy Barcellos relembrou o marco da revista Tição na imprensa rio-grandense, nos anos 1970, período em que circulava regionalmente. A diretora do núcleo gaúcho citou como conquistas dos jornalistas profissionais afro-brasileiros a apresentação e aprovações de teses em espaços como o 31º Congresso Estadual de Jornalistas, quando pela primeira vez é apresentado um documento sobre a temática racial e imprensa, e o 32º Congresso Nacional de Jornalistas, com apoio das Cojiras Rio e São Paulo. “Estamos começando a ver os resultados de uma luta que começou há mais de 30 anos. agora é preciso que todos saibam: a igualdade racial não é papel somente do jornalista negro, é uma luta de todos”, considerou. A nova investida do grupo sulista será a realização das Oficinas Desconstrução do Racismo nas universidades, focadas nos cursos de comunicação social.
Representando a Cojira-Rio, a jornalista Sandra Martins fez um panorama das ações do grupo fluminense, cada vez atraindo mais público para dentro do sindicato, e como despertou para a consciência negra. “É de fundamental importância a gente se ver como elemento inteiro da sociedade brasileira. Nós engrandecemos o Brasil e contribuímos com ele o tempo todo.”, salientou. De acordo com Sandra Martins, no Rio de Janeiro os jornalistas somam cerca de 5 mil profissionais, destes 300 são negros. Ainda se detendo aos números, a jornalista considerou como positiva a existência de quatro núcleos de trabalho da temática racial, pois em neste ano a Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) completa 70 anos, com 27 sindicatos estaduais, quatro sindicatos municipais e 40 mil jornalistas associados.
Representações
Também estiverem presentes à mesa de honra, o presidente da CUT/DF, Ismael César, e a deputada federal Janete Pietá (PT-SP). Entre os presentes, a Assessoria de Comunicação Social da Seppir e os integrantes do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial) João Bosco, Nelson Inocêncio e Ronald Barbosa.
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