por Camila de Moraes
Durante a última semana, de 12 a 18 de agosto, ocorreu o 35º Festival de Cinema de Gramado trazendo um panorama diversificado da produção audiovisual no país e na América Latina. Foi uma semana de oficinas comunitárias, exibição de filmes, de curtas, de documentários e de longas-metragens, além de debates sobre cinema.
O Cinema Negro e o Cinema de Periferia tiveram espaço em evento paralelo ao Festival, o 15º Gramado Cine Vídeo, de 10 a 18 de agosto, que promoveu o Cine Social.
O Cine Social abordou a Cultura e Inclusão, no dia 15, com apresentações de rap e curtas produzidos pelos moradores de periferia do RS e do RJ. No evento, várias manifestações artísticas foram praticadas na hora, como os grafites, por exemplo, sobre a temática discutida.
Rodada de opiniões
No dia 16, foi a vez de debater a Cultura Negra no cinema e a discriminação racial sofrida. Na mesa, estavam presentes os atores Antônio Pitanga, Lázaro Ramos, Rocco Pitanga eNelson Xavier, além dos atores gaúchos, Vera Lopes e Sirmar Antunes, a produtora Biza e os cineastas Octávio Bezerra e Zózimo Bulbul.
Ao iniciar a mediação da mesa, o ator Lázaro Ramos comentou a sua satisfação em estar participando daquele momento e indagou porque o debate 'Cultura x Discriminação Racial' não estava na mostra principal do 35º Festival de Cinema de Gramado.
Com a palavra, Nelson Xavier relatou que não sentiu preconceito no início de sua carreira e acredita no progresso da humanidade. À procura de uma estética negra no cinema, o ator Sirmar Antunes contou que começou a sua carreira buscando a visibilidade e o reconhecimento de seu trabalho, insistindo que é importante termos a consciência 'de que temos o poder em nossas mãos e na nossa fala'.
Antônio Pitanga, ao falar sobre sua experiência de vida, frisou que 'cada negro que se liberta, liberta um milhão...', dizendo ser um 'negro em movimento'. A atriz Vera Lopes, única mulher negra na mesa, relatou que 'é necessário saber de onde se vem, para saber para onde se vai e o que se quer'. Ressaltou que 'a África é um continente rico e o negro tem uma história de luta fantástica', diz. Em um discurso emocionado, ela pergunta: Cadê a diversidade no cinema, na televisão e no teatro, já que o Brasil é um país diverso? Ainda questionou a ausência de produtores, cineastas, atores e atrizes não negros - mas colegas de profissão - que não se fizeram presentes na platéia. Aplaudida de pé, a atriz continuou o discurso, com mais força e garra, denunciando e reivindicando os direitos de uma camada da população que é invisibilizada pela sociedade.
Representações
Entre o público, destacavam-se os religiosos de matriz africana como as Yalorixás Cenira de Xangô e Vera Soares, conselheira do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial), o Babalorixá Baba Diba, entre outros. E entidades do Movimento Negro como MNU, Negraldeia, Núcleo de Jornalistas do RS, IAFRA, Agentes da Pastoral do Negro, IacoreQ, Cecune, Maria Mulher, ACMUN, Floresta Aurora, Escola de Samba Bambas da Orgia, entre outros militantes ´que deram impulso ao debate, relatando histórias de vida e questionando os comentários dos facilitadores da mesa.
Zózimo Bulbul finalizou as falas com um pedido: 'Quero ver mais negros no ano que vem...quero isso tudo no cinema, teatro, televisão, rádio, literatura, em todos os espaços'.
Na parte da tarde ocorreu a amostra do Cinema Negro, com curtas, documentários e longas-metragens dos diretores Jefferson De, Joel Zito de Araújo, Zózimo Bulbul e Sérgio Bianchi.
"As atividades do Cine Social precisam ser compartilhadas com todo o público que prestigia o Festival de Gramado, devendo ser inserido, também, na programação oficial do evento", esse foi o apelo dos participantes das atividades de Cultura e Inclusão.
Pioneirismo
A militante Eliane Souza acredita ser a primeira vez que Gramado recebeu tantos representantes de Entidades negras gaúchas, destacando: 'estamos na era da visibilidade, por isso, além dos atores e celebridades, estaríamos referendando também os mártires da luta negra gaúcha'.
Os patrocinadores do Gramado Cine Vídeo garantiram a presença exclusiva do ator Lázaro Ramos para a promoção do evento. Também viabilizaram o transporte rodoviário para as comunidades negras gaúchas, através da indicação da profª Vera Triumpho. Os associados do Clube Social Floresta Aurora, um dos mais antigos clubes negros do Brasil, se fizeram presentes por iniciativa própria.
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