Personagens reais contando as suas próprias histórias e as de seus ancestrais. Essa foi a essência do ciclo de palestras “Igualdade Racial é assunto de sala de aula”, realizado na terça-feira (4) como uma das ações da Seppir na Semana da Pátria. Orientada pelo tema Educação, adotado pela Presidência da República como norteador das atividades culturais e socioeducativas, a primeira atividade da programação da Seppir “Igualdade racial, educação e cidadania para todos os brasileiros” gerou a aproximação de estudantes e professores do Distrito Federal com a diversidade étnico-racial.
O trabalho da Fundação Cultural Cartola, vice-presidida por Nilcemar Nogueira – neta do sambista – chamou a atenção de crianças e adolescentes, que conferiram diferentes vertentes: samba-de-roda, samba-terreiro e samba-enredo – todas explicadas por sambistas, carnavalescos e estudiosos da cultura negra e popular. No documentário audiovisual, que serviu de instrumento para o processo de reconhecimento do samba como patrimônio cultural do Brasil, o público conheceu um viés da história e da cultura brasileira pouco revelados na sua grandiosidade.
Nilcemar Nogueira exaltou a vivência das crianças, adolescentes e jovens nos espaços de samba, como quadras de escolas de samba, o que garante a transmissão de conhecimento e preservação da cultura afro-brasileira, conclamando: “nós como maioria temos que nos fortalecer”. A vice-presidente da Fundação Cultural Cartola compreende o potencial formador de respeito e valores de atividades como a do ciclo de palestras “Igualdade racial é assunto de sala de aula”. “É muito importante fazer entender que nessa diversidade, a matriz africana contribuiu e construiu vários hábitos. Trazer isso para a juventude é formar um nível de consciência e um olhar que valorize a igualdade e reconheça as diferenças de modo a preservá-las”, complementa Nilcemar Nogueira.
Travessias
Numa verdadeira viagem pelo mundo, conduzida por músicas e mostra de danças ciganas típicas de países ibéricos, europeus, africanos e orientais, Yáskara Guelpa e Azimar Orlow encantaram alunos e professores com relatos sobre as culturas de diferentes países onde os ciganos vivem. De acordo com a exposição, a alegria do povo cigano contrasta com as perseguições e preconceitos que são alvo ao longo dos séculos.
Revelando as conquistas ainda em curso e em construção, Yáskara Guelpa enumerou como fundamentais a criação do Dia Nacional do Cigano, comemorado em 24 de Maio, e do Grupo de Trabalho Cigano pelo governo federal após a realização da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, ocorrida em julho de 2005. “A Seppir deu início a uma série de encaminhamentos. Sempre fizemos parte da história mundial e agora começamos a ter realizações no Brasil. Agora em setembro, temos a segunda etapa do Grupo de Trabalho Cigano”, dividiu com o público.
Mudança para a escola
A professora Brazilene Martins Ferreira, do Centro de Ensino Fundamental II Guará, disse ter sido a primeira vez que a Semana da Pátria não se resumiu ao desfile cívico militar, agregando conhecimento e material a ser trabalho em sala de aula. “É um avanço significativo porque está aprofundando questões do universo escolar. É muito bom para todos nós, professores e alunos. Uma coisa é a gente trabalhar os livros de história, outra é trazer a garotada aqui e ouvir histórias das pessoas que afirmam a sua cultura”, considera a professora.
Parceiro na realização da programação da Seppir, o CDDN (Conselho de Defesa dos Direitos do Negro no Distrito Federal) destaca a importância de trabalhar a temática igualdade racial em diferentes datas. “Temos de levar a igualdade racial para outras datas cívicas, pois esse é um tema central e deve ser universal, de interesse a todos os cidadãos brasileiros. Essa atividade é um marco para o DF”, comentou o presidente do CDDN, João Birola.
Precursores da lei
Antes mesmo da lei 10.639/03 – que torna obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira nos ensinos fundamental e médio - professores como Amilton Matias já levavam a questão racial para dentro da sala de aula. Ministrando a disciplina de Filosofia no Centro Educacional II Sobradinho, o educador levou três turmas do 3º ano do ensino médio para o ciclo de palestras. “A exposição sobre o samba foi muito interessante, pois é a primeira vez que os alunos estão conhecendo. Eles tem aula sobre música, mas não sobre samba e com tanto conteúdo. Isso facilita muito o nosso trabalho, mas ainda temos pouco material diante desse universo apresentado”, conta o professor, que há 10 anos reúne material pessoal para abordar a temática racial em sala de aula.
Olhar renovado
Porta-voz dos quase 200 colegas presentes no ciclo da manhã, a adolescente Oberssanna Betinna fez um comentário surpreendente: “foi ótimo conhecer a beleza do samba, porque a gente só lembra do Rio de Janeiro pela violência e pelo tráfico de drogas. Vimos que a cultura cigana tem muito a nos apresentar e agora a gente consegue ver que pessoas normais, bem diferente das histórias que a gente ouve por aí”, traduziu a jovem o pensamento dos estudantes.
A ação Semana da Pátria 2007 – Igualdade Racial, Educação e Cidadania para Todos os Brasileiros buscou evidenciar a contribuição dos negros, indígenas e ciganos na independência do país, retratar a diversidade étnico-cultural e destacar que a verdadeira independência se consumará com o acesso de todos à educação.
A programação da Seppir contou com o apoio da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República), Ministério da Educação, Governo do Distrito Federal (Secretaria de Estado da Cultura e de Transportes) e do Conselho de Defesa dos Direitos do Negro do Distrito Federal.
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