Mulheres negras em ação: a hora e a vez do oeste paulista

 

Por Angélica Basthi, jornalista e mestre em comunicação pela Escola de Comunicação da UFRJ *

O protagonismo político das mulheres negras no cenário nacional tem sido cada vez mais evidente. Desde a década de 1970 – numa freqüência relativamente continuada – esse protagonismo vem sendo decisivo para a sedimentação de um novo lugar de fala do grupo. E também vem se consolidando numa das estratégias usadas pelo movimento de mulheres negras para construir novos discursos em torno da mulher afro-descendente [1]. Desta vez, a iniciativa vem das mulheres negras organizadas no interior de São Paulo. Ao ocupar cargos de liderança, articulam-se entre si, produzem novos discursos e fomentam políticas públicas direcionadas para o grupo e para a população afro-descendente.;

Um dos resultados desta intensa mobilização pôde ser observado durante o VII Encontro Regional de Mulheres Negras realizado nos dias 27 e 28 de julho na cidade de Itu, a 55 km de Campinas (SP). O encontro teve a participação de cerca de 150 mulheres de pelo menos 15 municípios do oeste paulista, incluindo outros estados como Bahia (Salvador) e Espírito Santo.

Constância
Há sete anos o encontro é organizado pela Nzinga Mbandi, organização de mulheres negras de Piracicaba, e sempre acontece numa cidade eleita no interior de São Paulo. O evento ocorre no período da semana das comemorações do Dia 25 de Julho, em homenagem à Mulher Negra na América Latina e Caribe.

Hoje são cerca de dez organizações negras dirigidas por mulheres afrodescendentes naquela região. Há ainda as que abrigam mulheres exercendo funções com evidente destaque. “O fato de hoje sermos hoje 10 mulheres negras à frente de organizações ou exercendo funções onde nos destacamos, ajudou a fortalecer o movimento de mulheres negras no oeste paulista. É um momento único”, reconhece Silvana Veríssimo, presidente da Nzinga Mbandi e responsável pelos encontros regionais.

A força das mulheres negras do interior paulista pode ser comprovada pela parceria entre Veríssimo e Fátima do Carmo, secretária da União Negra Ituana (UNEI), uma das mais antigas organizações negras da cidade de Itu. Amigas desde 2005 – na ocasião de uma audiência pública sobre um caso de racismo na cidade do Tietê que mobilizou o movimento negro local e nacional –, Veríssimo e Carmo deram uma nova dimensão ao encontro regional de 2007. Conscientes do potencial de uma ação coletiva, a dupla organizou-se numa ação em rede.

A parceria contou com a colaboração de mulheres de outras cidades e estados. Entre elas, Regina Vieira Pedroso, presidenta da Associação Raízes, em Sorocaba, Edviges Aparecida Freitas, do movimento de mulheres também daquela cidade, e Ester Nascimento Mattos, da Associação de Mulheres Negras Oborin Dudu, do Espírito Santo.
A escolha de Itu para sediar o evento também foi uma estratégia para mostrar a força simbólica do movimento negro naquele município. Com 150 mil habitantes, Itu tem apenas uma organização negra representativa na cidade, a UNEI, fundada há quatorze anos. Não há ainda um movimento de mulheres negras independente. As mulheres estão organizadas dentro da própria UNEI.

Desafios
Na noite de abertura, as participantes ouviram as palestras de Roseli de Oliveira, doutora em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e da professora Maria da Penha Gomes, representante da Fala Preta – Organização de Mulheres Negras. Os temas focaram o protagonismo das mulheres negras e os aspectos históricos que contextualizam a mulher negra atual. No segundo dia, entre as oito palestras, o destaque foi para as advogadas Andréa Anwbasili e Eni Augusta de Paula. Ambas são assessoras da Secretaria de Justiça e Cidadania de São Paulo.

Anwbasili, por exemplo, apresentou dados sobre o Tráfico de Seres Humanos no Brasil e no mundo. De acordo com ela, o que caracteriza o tráfico são as condições que as vítimas são submetidas: cárcere privado, confisco de documentos e impedimento de contato com a família. Segundo a advogada, o tráfico de pessoas mobiliza cerca de 32 bilhões de dólares por ano no mundo, sendo que cada indivíduo rende entre 13 a 30 mil dólares/ano. 

Do total de pessoas traficadas, 83% são mulheres sendo 48% menores de 18 anos. Ainda de acordo com Anwbasili, 91% são traficadas para exploração sexual enquanto 21% para mão de obra escrava. Embora reconheça que não existam dados estatísticos que mapeiem o quesito cor das mulheres hoje traficadas no Brasil, Anwbasili supõe que, sendo mulheres de camadas pobres e desfavorecidas, há indícios de uma considerável presença de mulheres negras traficadas.

Assédio moral
Já Paula apresentou o tema Gênero, Direito Trabalhista e Assédio Moral, um grave problema ainda pouco discutido na sociedade. De maneira clara e objetiva, ela definiu o assédio moral por “comportamento abusivo que, por sua repetição, ameaça a integridade física ou psíquica da pessoa no ambiente de trabalho. Torna-se destrutivo na medida em que transforma-se numa ação sistemática”. A advogada chamou a atenção para uma atitude solidária entre as mulheres. Segundo ela, o agressor geralmente escolhe a vítima que, sentindo-se envergonhada e isolada, fica ainda mais vulnerável diante do problema.

No final do encontro, em reunião com lideranças femininas negras, a avaliação foi de que no interior de São Paulo o racismo e o sexismo continuam persistentes. A maior evidência permanece no mercado de trabalho.A meta é investir na capacitação de mulheres negras, jovens e adultas, para o enfrentamento das barreiras impostas por um sistema patriarcal, excludente e racista.

[1] BASTHI, Angélica. Memória, Imaginário e Poder: Práticas Comunicativas e de Ressignificação de Organizações de Mulheres Negras. 2007. 190f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, 2007.
* Viajou para Itu a convite da organização do evento.