Por Juliana Dias, Instituto Mídia Étnica
Com colaboração de André Santana
O 1º Enjune (Encontro Nacional de Juventude Negra), realizado de 27 a 29 de julho foi inaugurado na cidade de Lauro de Freitas (BA) com duas mesas de debates, uma de representantes governamentais e outra da sociedade civil. As autoridades falaram da importância do encontro para a juventude negra e a necessidade da efetivação de políticas públicas para esse segmento. Entre os presentes a ministra da Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), Matilde Ribeiro; o representante do Ministério da Saúde, Antônio Alves; o secretário municipal da Reparação de Salvador, Gilmar Santiago; a prefeita de Lauro de Freitas, Moema Gramacho e a vereadora Olívia Santana.
“A importância está em revigorar o movimento negro e trazer inovações para o governo e para a sociedade civil. Esse formato de organização autônoma merece apoio para sua continuidade e para a construção da transversalidade, que aponte fatores fundamentais para a juventude negra” afirmou a ministra Matilde Ribeiro.
A segunda mesa do Enjune “Genocídio da Juventude Negra” reuniu representantes de organizações da sociedade civil, como Deise Benedito, da ONG Fala Preta (SP); Seba Vassou, do Fórum Reage Baixada (RJ); Alexandre Garnizé, do Conselho Nacional de Juventude (RJ) e o pesquisador Zapata, do Rio Grande do Sul, além de Hamilton Borges e Lio Nzumbi, ambos do Movimento Negro Unificado e da Campanha Reaja ou será mort@ (BA).
“No Brasil, a identidade criminal é determinada pelos traços físicos, dividindo quem é do bem e quem é do mal. Essa imagem nociva do jovem negro, reforçada pela mídia, deve ser derrubada”, afirmou Deise Benedito, alertando para a gravidade do genocídio cotidiano de jovens negros e negras. A noite de abertura do Enjune prestou uma homenagem ao Dia da Mulher Negra da América Latina e do Caribe, comemorado no dia 25 de Julho. A Banda Aiyê,do bloco afro Ilê Aiyê encerrou a primeira noite ao som de grandes sucesso do Carnaval baiano.
Rodas de Discussão
No sábado, 28 de julho, ocorreram 14 rodas de discussão com os seguintes eixos temáticos: cultura, gênero, educação, comunicação e tecnologia, violência, meio ambiente, sexualidade, acessibilidade, religiosidade, trabalho, terra e moradia, saúde, intervenção nos espaços políticos e ações afirmativas. As discussões tiveram a participação de representantes da juventude negra brasileira, representantes da sociedade civil e instituições governamentais, entre eles ministérios da Saúde e da Justiça, e as Secretarias de Direitos Humanos e de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
No último dia do encontro, 29 de julho, o Regulamento do Enjune foi agregado com novas contribuições dos representantes dos 21 estados presentes. Na segunda etapa da programação de domingo, reiniciaram-se as Rodas de Discussão, destaque para a de cultura, com a participação do ator e diretor teatral baiano, Ângelo Flávio. O artista discutiu o acesso às políticas culturais existentes no país que, segundo ele, não contemplam a juventude negra brasileira; e sugeriu a criação de uma política cultural estruturada que fuja dos padrões e estereótipos criados pelo imaginário eurocêntrico. “O país precisa repensar e efetivar políticas socioculturais que resgatem e valorizem a cultura negra, negada ao longo do tempo para nós, afrodescendentes. Assim como a construção de uma plataforma única que nos permita tratar de nossas questões no contexto étnico-racial”, enfatizou Ângelo Flávio.
Mulheres negras
Bastante procurada, a Roda de Discussão “Gênero e feminismo” teve a participação de Ubiraci Matildes, do Fórum Nacional de Mulheres Negras (BA), e Regina Adami, assessora parlamentar da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, que fez uma explanação sobre a autonomia das jovens negras e o destaque de pontos estratégicos para implementação de políticas públicas. Adami ressaltou a importância de ações que tenham como objetivo atender fatores como a descriminalização do aborto, o contraste com o mercado de trabalho, a exploração sexual e o tráfico de mulheres, que em sua maioria são jovens negras.
“As jovens negras que integraram as discussões aqui no Enjune estão atentas e atualizadas com os assuntos que afligem as mulheres negras, compreendendo o feminismo negro, a partir da realidade social e racial de cada estado. É importante que as mulheres jovens negras estejam discutindo com o governo sobre estas problemáticas”, reafirmou Regina Adami.
Os painéis “Novas Perspectivas na Militância Étnico-Racial” e “Juventude Negra e Diáspora Africana” concluíram as discussões do Enjune com militantes negros e negras do Brasil e de países como o Uruguai e o Senegal. |