destaque Seppir

destaque Seppir

25 de junho a 1o de julho de 2005 – nº 042 - Ano 1

Boletim informativo semanal da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
Se você deseja receber este boletim em seu e-mail, clique aqui

Aspas

 

Samba maioral.
Onde é que você se meteu
antes de chegar na roda, meu irmão?
A responsabilidade de tocar seu pandeiro
É a responsabilidade de você manter-se inteiro.
Por isso chegou a hora dessa roda começar.
Samba Makossa da pesada, vamos todos celebrar.

Cerebral. É assim que tem que ser.
Maioral. É assim que é.

Bom da cabeça e um foguete no pé,
Samba Makossa, sem hora marcada, é da pesada.


Samba Makossa - Chico Science (1966-1997)

                                                                                    NESTA EDIÇÃO:

CHEGOU A HORA!


Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial

30 de junho, 1o e 2 de julho
Centro de Convenções Ulysses Guimarães, Brasília, DF



Editorial - Pelos nobres ideais da Promoção
da Igualdade Racial
(Leia Mais)

Aclamada pela crítica, Os Negros, peça de Genet, com direção de Luiz Pilar, chega a Brasília para a Conferência
(Leia Mais)

Desigualdade racial e metas de desenvolvimento do
milênio abrem semana histórica em Brasília

(Leia Mais)

"Povo do santo" encaminha propostas para Conferência
(Leia Mais)

Religião, preconceito e solidariedade segundo
a doce Iyá Nitinha
(Leia Mais)


A DESIGUALDADE EM NÚMEROS -
(Leia Mais)

Anote aí:
os números de telefones da Seppir ganharam um "3" antes do primeiro dígito. Por exemplo, o telefone da Assessoria de Comunicação,
411-4977, passa a ser 3411-4977.


pan

Editorial
Pelos nobres ideais da Promoção da Igualdade Racial


"Para chegar a lugares onde ainda não estivemos,
é preciso passar por caminhos pelos quais ainda não passamos"
Gandhi


O Brasil viverá nesta semana um momento ímpar. O tema "promoção da igualdade racial", pela primeira vez na história, será o centro de uma arena nacional que reunirá a sociedade civil organizada e o Governo, em suas mais variadas instâncias, para debater políticas que eliminem as desigualdades causadas pelo racismo e promovam a inclusão dos grupos excluídos das riquezas produzidas por este País. Esta possibilidade sempre foi um sonho de muitas gerações e torna-se realidade agora.


Negros, indígenas, ciganos, árabes-palestinos, judeus e toda a sorte de grupos discriminados estarão em Brasília, entre os dias 30 de junho e 2 de julho, para participar da 1ª Conferência Nacional da Promoção da Igualdade Racial, ponto culminante de um processo preparatório que envolveu o Brasil de diferentes cores e matizes, crenças, resgatando dores, reafirmando a determinação dos "condenados da terra", na expressão cunhada pelo combatente contra o colonialismo Franz Fanon, imbuídos de um mesmo propósito: o respeito à diferença, a valorização da pluralidade, a afirmação da justiça, por povos que sempre prezaram a dignidade como valor primo da humanidade, remanescentes de civilizações que se pautam pelo acolhimento, expresso pela constituição de espaços onde o diverso não se transmuta em desigualdades.

O evento acontece no monumental Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, que acaba de ser reinaugurado. Emblemático o local, para aqueles que vivem sempre às margens da estupenda riqueza produzida, mas nunca distribuída. Esses povos, antes de tudo, merecem respeito e dignidade. O Brasil precisa urgentemente tornar-se verdadeiramente um País de todos. e a promoção de políticas de igualdade racial é um caminho obrigatório para a conquista dessa meta.

A construção de um projeto de nação não será viabilizada se não considerarmos os aspectos pluriétnicos e multiculturais do povo brasileiro. Nesse sentido, é preciso levar em consideração as tradições seculares e o processo civilizatório de todos os povos que formam este verdadeiro caldeirão da diversidade chamado Brasil.

Buscamos, entre outras coisas, acabar com situações como a vivida por mãe Nitinha, ao tentar embarcar para Brasília, de onde partiria para o velório do papa. Lutamos para que as crianças indígenas e negras tenham direito à vida. Para que a juventude negra não seja exterminada. Para que nossos jogadores de futebol deixem de ser chamados de macaco, aqui ou no exterior. E para que os ciganos deixem de ser conhecidos como ladrões de criança e adivinhadores da sorte. Que todos sejam considerados efetivamente cidadãos. Que a luta contra o racismo, o preconceito e a discriminação ao outro na sua maneira de ser seja entendida pelo Estado brasileiro como um elemento central na política publica nacional e, para além disso, considerada como política definitiva de Estado.

Centro de Convenções Ulysses Guimarães

      Palco - Centro de Convenções Ulysses Guimarães (em primeiro plano), um monumento à altura desse momento histórico. Foto: Setur-DF

Participarão da Conferência cerca de 1.200 delegados, eleitos nas conferências estaduais e consultas indígena e quilombola. Além disso, convidados e observadores do Brasil e de diversas partes do mundo estarão presentes no evento. São esperadas em Brasília cerca de 3.000 mil pessoas, que certamente ampliarão as cores da capital federal, em seu inverno forrado pelo desabrochar dos ipês - roxos, amarelos e brancos -, além de um arco-íris de cores típicas da vegetação do cerrado. Um banquete da diversidade, onde serão levados à mesa os conceitos de "igualdade racial", "identidade nacional" e "democracia".

O evento terá ampla cobertura da mídia. Foram credenciados cerca de 150 profissionais de imprensa para participar do evento. Jornalistas brasileiros já vacinados contra o modo colonizador de pensar, vindos do Continente Africano e das Américas do Norte e Sul estarão acompanhando de perto toda a movimentação.

Aqueles que não puderem estar em Brasília durante o evento não ficarão sem informação. A abertura e o encerramento terão transmissão em tempo real pela internet (veja abaixo). A Rabiobrás transmitirá ao vivo, diretamente do Centro de Convenções, toda a movimentação do evento, via TV, rádio e internet. O importante neste instante é pensarmos o Brasil que queremos, o Brasil que sonhamos. Acompanhe, participe. Esta é a hora.

Este Destaque Seppir é dedicado a todos e todas que lutaram secularmente e os que ainda lutam nos dias de hoje por esses nobres ideais.

Conferência será transmitida em tempo real
pela internet e pela Radiobrás

A 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial será transmitida em tempo real pela internet no dia da abertura e no encerramento. O trabalho será realizado por técnicos da área de TI (Tecnologia da Informação) do Ministério da Saúde, que já utiliza a ferramenta para os eventos na área de saúde. No ano passado o 1º Seminário de Saúde da População Negra utilizou a mesma tecnologia. Os internautas devem acessar o site da Seppir (www.presidencia.gov.br/seppir).

Além disso, o sistema de rádio, TV e internet da Rabiobrás transmitirá diretamente do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, a abertura e os principais acontecimentos do evento. A rede pública produzirá matérias especiais para todo o Brasil, diretamente do local da Conferência, durante os três dias do evento.

PROGRAMAÇÃO

29 de junho

14h às 19h - Credenciamento
30 de junho

9h - Credenciamento

15h30 - Ato de abertura e atividades culturais nacionais

17h - Mesa Redonda: Políticas de promoção da igualdade racial e de ações afirmativas

20h - Mesa Redonda: Diálogo sobre políticas culturais na América e no Caribe

22h - Exibição do filme Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo
1o de julho

8h - Aprovação do Regimento Interno


9h - Mesa redonda : Identidade nacional, política e legislação para a superação do racismo

11h15 - Painéis simultâneos:

. Políticas de Trabalho e Desenvolvimento Econômico
. Políticas de Educação
. Políticas de Saúde
. Políticas sobre Diversidade Cultural
. Políticas de Direitos Humanos e Segurança Pública
. Políticas para Comunidades Remanescentes de Quilombos
. Políticas para Povos Indígenas
. Políticas para Juventude
. Políticas para Mulheres
. Política Internacional
. Religiões de Matriz Africana
. Fortalecimento das Organizações Anti-Racismo

14h30 -
Debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial

16h30 -
Grupos de Trabalho de acordo com os eixos estruturantes da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial e Texto-base debatido nas conferências estaduais
2 de julho

8h - Plenária geral


18h - Encerramento

20h - Programação cultural
   
1a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial

Data: 30 de junho a 2 de julho
Local: 
Centro de Convenções Ulysses Guimarães, Setor de Divulgação Cultural, Eixo Monumental Oeste, Brasília, DF
Informações: 0800 642 15 25

(voltar)

Aclamada pela crítica, Os Negros, peça de Genet, com direção de Luiz Pilar, chega a Brasília para a Conferência

Um dos mais importantes textos para teatro do francês Jean Genet, Os Negros, estréia na próxima sexta-feira (1o) no teatro do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de Brasília, com direção do multimídia Luiz Antonio Pilar. No elenco, Sergio Menezes, Iléa Ferraz, Maurício Gonçalves, Maria Ceiça, Romeu Evaristo, Patrícia Costa, Nívia Helen, Sarito Rodrigues, Deoclides Gouvêa, Jozé Araújo, Audri da Anunciação, Lincoln Oliveira e Jorge Lucas.

Escrita em 1958, a peça é classificada por Genet como "uma clowneria", ou seja, uma palhaçada, e Pilar reforça esse aspecto bem humorado. "Na verdade, Genet não discute a questão racial. O autor discute o comportamento do ser humano sobre a dominação. Segundo Genet é uma palhaçada a afirmativa de que uma etnia é mais poderosa do que a outra", afirma o diretor.

Os Negros têm uma estrutura pouco convencional: não se trata de um texto com começo, meio e fim. Os 13 atores negros dividem-se em dois grupos: os que aparecem como eles mesmos e aqueles que aparecem mascarados para representar homens brancos.

"Esses brancos formam a corte, que inicia o espetáculo numa plataforma superior, de onde assistem à encenação do assassinato de uma mulher branca. Cumprida essa parte, inicia-se uma nova fase: a Rainha e sua Corte descem numa expedição primitiva e são mortos pelos negros. Paralelamente a esses fatos, ocorre, nos bastidores, o julgamento e a condenação de um negro traidor. Jean Genet mostra que o ocorrido serviu apenas para distrair a atenção do público da cena principal", explica o diretor.

Maldito
Jean Genet (1910-1986), filho ilegítimo, passou boa parte de sua vida entre reformatórios para jovens infratores e cadeias. Assumidamente homossexual, garoto de programa e ladrão, conheceu a fama ao ter seu talento literário reconhecido por nomes importantes da intelectualidade francesa como André Gide, Jean Cocteau e Jean-Paul Sarte, que lhe dedicou um estudo, Saint Genet: Ator e Mártir, em que o considera o protótipo do homem existencialista. Genet é considerado um dos expoentes do teatro do absurdo. Em sua autobiografia, Diário de um Ladrão, afirma: "criminosos e policiais são a emanação mais viril deste mundo".

Abençoado
Bacharel em direção de artes cênicas pela UniRio (Universidade do Rio de Janeiro), 44 anos, diretor de TV, cinema e teatro, Luiz Pilar conheceu o texto do escritor francês ainda na faculdade, e, em 1985, encomendou uma tradução do texto de Os Negros para seu projeto de encená-la.

Rica nos detalhes de cenografia, figurino e iluminação, a montagem de Pilar foi recebida com entusiasmo pela crítica, desde sua estréia, em 2005, no Rio de Janeiro.

O espetáculo tem duração de uma hora e 40 minutos e classificação etária de 16 anos. A entrada custa R$15.

   
Os Negros

Data: de 1o a 7 de julho
Horário: 21h, exceto dia 3 (domingo), às 20h
Local: 
teatro do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, SCES,Trecho 2, Conjunto 22, Brasília, DF
Informações: (55 61) 3310-7087

(voltar)

Desigualdade racial e metas de desenvolvimento
do milênio abrem semana histórica em Brasília

As desigualdades raciais no Brasil são um entrave, entre tantos outros, para que o País alcance os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conjunto de metas inclusivas estabelecidas pela ONU (Organização das Nações Unidas), a serem cumpridas até 2015. Para um debate sobre como superar a situação, nomes de peso se reúnem, nas próximas terça (28) e quarta-feira (29), no painel internacional Ações Afirmativas e os Objetivos do Milênio, que antecede a 1a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial.

"Espero um amplo debate no painel, que contribua para cumprimento, por parte do Brasil, dos Objetivos do Milênio, e que ele contribua para que cada vez mais a promoção da igualdade racial seja considerada uma importante ferramenta no alcance dessas metas", afirma a secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, ministra Matilde Ribeiro, que compõe a mesa de abertura, dia 28, às 19h30 (confira a programação completa abaixo).

Clare Roberts, presidente da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) da OEA (Organização dos Estados Americanos) e relator da recém-criada relatoria especial de Afrodescendentes e contra a Discriminação Racial, participa do encontro, da Conferência Nacional, e depois segue para uma viagem em que conhecerá de perto a realidade brasileira. A relatoria a cargo de Roberts monitora e estimula políticas de promoção da igualdade racial nos países membros da OEA e analisa denúncias de racismo e discriminação.

Representantes de organizações internacionais também participam do painel. Laís Abramo, diretora da OIT (Organização Internacional do Trabalho) no Brasil e Ana Falu, diretora regional para o Brasil e Cone Sul do Unifem (Fundo das Nações Unidas para a Mulher) estão entre os nomes confirmados.

Militantes do movimento negro e das causas indígenas do Continente Americano vão discutir políticas públicas para os grupos discriminados. O mestre Abdias Nascimento, pioneiro no debate sobre ações afirmativas no Brasil, do alto de seus 91 anos, participa do painel, trazendo toda sua experiência na militância e na política.

Risco
Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio foram estabelecidos durante a Cúpula do Milênio, realizada no ano 2000, em Nova York, com representantes de 191 países - foi a maior reunião de dirigentes mundiais de todos os tempos. Na ocasião, foi aprovada a Declaração do Milênio das Nações Unidas. Os Objetivos do Milênio foram endossados por líderes mundiais, pelo Banco Mundial e pelo FMI (Fundo Monetário Internacional). Estabeleceram-se metas mínimas para o combate à pobreza, fome, doenças, analfabetismo, degradação do meio ambiente e discriminação contra a mulher.

Os sinais de alerta para o Brasil, contudo, estão acesos. Segundo o Atlas Racial Brasileiro, elaborado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), em parceria com o Cedeplar (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional) da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), lançado em 2004, existem pontos cruciais em que, mantidos os indicadores históricos de desigualdade racial das últimas décadas, alguns Objetivos do Milênio podem deixar de ser cumpridos pelo Brasil no prazo previsto.

No caso da mortalidade infantil, por exemplo, considerando a meta estabelecida - 16 óbitos de menores de um ano por mil nascidos vivos, até 2015 -, será preciso uma redução de 30,2% na mortalidade infantil dos filhos de mulheres brancas e de 57,9% entre os filhos de mulheres negras. Mantido o ritmo de queda na década de 1990 para a mortalidade dos filhos de mães brancas, esse objetivo, para os brancos, deverá ser atingido antes mesmo de 2015. No entanto, para os negros, a manutenção no ritmo de queda no mesmo período será insuficiente para o alcance da meta.

PROGRAMAÇÃO

28 de junho

19h30 - Abertura solene e programação cultural
29 de junho

8h30 - Mesa 1: Cenário Internacional: A Diversidade Racial e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio

11h -
Mesa 2: Proposições para as Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial

14h - Instrumentos Nacionais e Internacionais de Promoção da Igualdade Racial
 
   
Painel internacional Ações Afirmativas e os Objetivos do Milênio

Data: 28 a 29 de junho
Horário: abertura dia 28, às 19h30. Dia 29, a partir das 8h30
Local: 
auditório da Finatec (Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), Campus Universitário Darcy Ribeiro da UnB (Universidade de Brasília), avenida L3 Norte, Asa Norte, Brasília, DF

(voltar)

"Povo do santo" encaminha propostas para Conferência

por Isabel Clavelin


Reunião com religiosos de matriz africana

  Axé - A batalhadora Leci Brandão (à direita), que será a porta-voz dos povos discriminados na abertura da Conferência, na reunião com religiosos de matriz africano.


Às vésperas da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, pais e mães de santo levaram à Brasília anseios pela liberdade de culto e urgência de ações contra a intolerância religiosa, registrados na Reunião Política de Religiões de Matriz Africana, que encerrou o ciclo de encontros organizados pela Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) da Presidência da República antes da Conferência. Recebidos pela secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, ministra Matilde Ribeiro, cerca de 20 representantes de entidades nacionais de religiões de matriz africana discutiram ações com o Ministério da Educação, Ministério das Cidades, Secretaria Especial de Direitos Humanos e Fundação Cultural Palmares, do MinC (Ministério da Cultura).

Mobilizados, parte do grupo também participou de audiência com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, solicitada pela Coordenação dos Movimentos Sociais. No encontro, realizado no Palácio do Planalto, Lula foi presenteado pela fundamental Leci Brandão, conselheira do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial) e as iyalorixás Railda e Edelzuita com o tambor de Xangô, orixá que representa da justiça.

Expectativa na Conferência
Filha de Oxum com Ogum, Vanda Machado, pertencente a um dos tradicionais terreiros de Salvador, o Ilê Axé Opó Afonjá, destaca a importância desse momento de construção e proposições de políticas para a promoção da igualdade e superação das desigualdades raciais. "Depois de tantos anos, é necessário que digamos aquilo que está no nosso coração. Já racionalizamos todo o tempo. Já pensamos muito em como encontrar brechas. A gente entende que vá acontecer, quando a gente falar bem da gente mesmo. Ficamos indignados quando a mídia fala mal das nossas vivências religiosas. Este momento acho que será de procura e possibilidade de nos apresentarmos como somos, de falar de solidariedade e ajuntamento. Isso não começou hoje, essa é a lição dos terreiros", ensina.

O vice-presidente da Congregação de Defesa das Religiões Afro-brasileiras (CDRAB), o Babalorixá Dyba de Yemanjá, denuncia para todo o Brasil as práticas contra os cultos de matriz africana no Rio Grande do Sul como a tentativa de proibição de sacrifícios de animais e a Lei do Silêncio. "Viemos de um Estado que é o mais racista do País e precisamos sair do anonimato para brigar por uma lei que redunda com a Constituição Federal. Foi importante porque mostramos que temos força e vontade própria. Temos opinião sobre bioética, diminuição sobre a idade penal e sobre tudo o que rege a humanidade. Fala-se muito que o Estado é laico, mas não se comporta como tal porque favorece outros grupos religiosos", declara Babalorixá Dyba.

Para o religioso gaúcho, a religiosidade afro-brasileira precisa ser mais bem defendida e vista como eixo de discussão. "Enquanto a comunidade negra não perceber que temos uma religião que norteia a nossa vida e nossa visão de mundo, não vamos avançar em termos de políticas de ação afirmativa", afirma.

Membro do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial), representando o Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-brasileira, Everaldo Conceição Duarte considera a Conferência uma oportunidade de articulação política.

"Acho que é um passo muito importante nos anseios da comunidade negra do Brasil inteiro. Isso nos permite discutir cara a cara com o Estado as nossas reivindicações e nossos problemas que vêm sendo sofridos há muito tempo e a sociedade toda sabe disso. Me preocupo com a questão da religiosidade africana brasileira, porque foi o berço de toda a nossa resistência até agora. Do que pese nossos sofrimentos, era nos terreiros que encontrávamos um espaço para pensar e encontrar um amparo espiritual. Apesar de não termos uma quantidade de religiosos numerosa, com a ajuda dos deuses vamos conseguir", reflete Duarte.


(voltar)

Religião, preconceito e solidariedade segundo a doce
Iyá Nitinha, uma guardiã da cultura do candomblé


Iyá Nitinha

  Protegida - Areonilthes da Conceição Chagas, a Iyá Nitinha: tradição e doçura de uma guardiã do candomblé. Ao fundo, a pilastra de Xangô, o orixá da justiça.


A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso VI, é clara: "é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias". Infelizmente não é essa a liberdade que desfrutam os praticantes de religiões de matriz africana no Brasil. O preconceito contra eles é um dos mais renitentes. Feiticeiros, enviados do demo, curandeiros, macumbeiros, entre outros termos, sempre pejorativos, já fazem parte do cotidiano brasileiro. Recentemente um dos grandes jornais do País estampou no alto de página do seu caderno mais importante a seguinte manchete: "Lula leva até mãe de Santo para Roma". Muito se protestou. Retratação, nem pensar.

Poucos conseguem ver a mesma manchete com um representante de outra religião. Esse quadro deixa claro o preconceito arraigado na sociedade brasileira não só nos seguimentos menos informados, mas também em parcelas importantes da nossa elite.

Parteira desde os 17 anos, até hoje, na casa dos 70 anos, se necessário, ela realiza partos. A iyalorixá Areonilthes da Conceição Chagas, a doce e energética Iyá Nitinha d'Oxum, uma das mais respeitadas sacerdotisas do terreiro Ilê Iyá Nassô, mais conhecido como Casa-Branca do Engenho Velho, em Salvador, na Bahia, tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e legalmente reconhecido como o mais antigo terreiro de candomblé ainda existente e de que se tem notícia no Brasil. Não por coincidência, Iyá Nitinha é também uma das mais antigas iniciadas na religião dos orixás no Brasil, que congrega todas as formas religiosas de matrizes africanas aqui praticadas, que hoje, segundo dados do Censo Demográfico 1991-2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), congrega cerca de 0,3 % da população brasileira.

Iyá Nitinha foi convidada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para participar das cerimônias fúnebres do papa João Paulo 2o. Por causa de contratempos na chegada ao aeroporto Antonio Carlos Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro, perdeu o vôo que a levaria para Brasília, de onde seguiria para Roma. Ganhou mídia pelo fato. O que muitos não sabem é que mãe Nitinha é uma das guardiãs das tradições religiosas africanas preservadas até hoje no Brasil, mesmo diante de todos os preconceitos.

Nasceu em Salvador (BA), "há muito tempo atrás", segundo ela. À sua volta, reúne gente de todas as classes sociais. Desde personalidades do mundo artístico - as tais celebridades - até pessoas sem ter onde cair que batem à sua porta. Estudou magistério e se formou professora. Olhando a movimentação em sua casa no bairro de Miguel Couto, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, o Ilê Nossa Senhora das Candeias, percebe-se que, antes de tudo, os terreiros são verdadeiros centros de assistência social e espiritual. O terreiro comandado por mãe Nitinha, por exemplo, oferecerá curso de alfabetização para jovens e adultos a partir do segundo semestre deste ano. A sacerdotisa, cercada de filhos e filhas, conversou com o
Destaque Seppir em uma terça-feira de maio. Em meio a consultas para encaminhamentos de atividades, falou sobre sua vida, religião, preconceito e do Brasil. Clique aqui e leia os principais trechos.


(voltar)

..

A DESIGUALDADE EM NÚMEROS

Evolução de negros no ensino fundamental é baixa

Jovens de 18 anos ou mais com o ensino fundamental concluído
(8ª série) , em áreas urbanas, em %


Brasil
Negros: 41,7

Brancos: 58,9

Alagoas tem os percentuais mais baixos
Negros, 29,3
Brancos, 46,9

Distrito Federal tem os melhores resultados
Negros: 58,9
Brancos: 76

Fonte: Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), Radar 2005 , a partir da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2003

(voltar)


As paulistanas Airucy Bárbara Diogo Casimiro, de 18 anos, estudante de Direito (à esquerda), e sua irmã, Amarílis Helena Diogo Casimiro, de 15 anos, estudante do ensino médio, ilustram com seus sorrisos a foto ao lado da logomarca do Destaque Seppir.

Leia as edições anteriores:

41 - 40 - 39 - 38 - 37 - 36 - 35 - 34 - 33 - 32 - 31 - 30 -29 -28 - 27 - 26 - 25 - 24 - 23 - 22 - 21 - 20 - 19 - 18 - 17 - 16 - 15

Clique aqui para voltar à edição desta semana do Destaque Seppir


Assessoria de Comunicação Social da Seppir
Jornalista Responsável: Cláudio Eugênio
Assistente: Osmar Camelo
Colaboradores: Graça Ohana, Jorge Carneiro
e Maria Inês Barbosa - Seppir
Telefone: (55 61) 3411-4977
Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial


Caso você queira esclarecer dúvidas ou dar sugestões, clique aqui