Boletim informativo semanal da
Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
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Samba maioral.
Onde é que você se meteu
antes de chegar na roda, meu irmão?
A responsabilidade de tocar seu pandeiro
É a responsabilidade de você manter-se inteiro.
Por isso chegou a hora dessa roda começar.
Samba Makossa da pesada, vamos todos celebrar.
Cerebral. É assim que tem que ser.
Maioral. É assim que é.
Bom da cabeça e um foguete no pé,
Samba Makossa, sem hora marcada, é da pesada.
Samba Makossa - Chico Science (1966-1997) |
NESTA EDIÇÃO:
CHEGOU A HORA! |

30 de junho, 1o e 2 de julho
Centro de Convenções Ulysses Guimarães, Brasília, DF
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Editorial - Pelos nobres ideais da Promoção
da Igualdade Racial (Leia Mais)
Aclamada pela crítica, Os Negros, peça de Genet,
com direção de Luiz Pilar, chega a Brasília para a Conferência
(Leia Mais)
Desigualdade racial e metas de desenvolvimento do
milênio abrem semana histórica em Brasília
(Leia Mais)
"Povo do santo" encaminha propostas para
Conferência
(Leia Mais)
Religião, preconceito e solidariedade segundo
a doce Iyá Nitinha (Leia Mais)
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A DESIGUALDADE EM NÚMEROS - (Leia Mais)
Anote aí: os números de telefones da Seppir ganharam um "3" antes do
primeiro dígito. Por exemplo, o telefone da Assessoria de Comunicação,
411-4977, passa a ser 3411-4977.
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Editorial
Pelos nobres ideais da Promoção da Igualdade Racial |
"Para chegar a lugares onde ainda não estivemos,
é preciso passar por caminhos pelos quais ainda não passamos"
Gandhi |
O Brasil viverá nesta semana um momento ímpar. O tema "promoção da igualdade
racial", pela primeira vez na história, será o centro de uma arena nacional que
reunirá a sociedade civil organizada e o Governo, em suas mais variadas instâncias, para
debater políticas que eliminem as desigualdades causadas pelo racismo e promovam a
inclusão dos grupos excluídos das riquezas produzidas por este País. Esta possibilidade
sempre foi um sonho de muitas gerações e torna-se realidade agora.
Negros, indígenas, ciganos, árabes-palestinos, judeus e toda
a sorte de grupos discriminados estarão em Brasília, entre os dias 30 de junho e 2 de
julho, para participar da 1ª Conferência Nacional da Promoção da Igualdade Racial,
ponto culminante de um processo preparatório que envolveu o Brasil de diferentes cores e
matizes, crenças, resgatando dores, reafirmando a determinação dos "condenados da
terra", na expressão cunhada pelo combatente contra o colonialismo Franz Fanon,
imbuídos de um mesmo propósito: o respeito à diferença, a valorização da
pluralidade, a afirmação da justiça, por povos que sempre prezaram a dignidade como
valor primo da humanidade, remanescentes de civilizações que se pautam pelo acolhimento,
expresso pela constituição de espaços onde o diverso não se transmuta em
desigualdades. |
O evento acontece no monumental Centro de
Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, que acaba de ser reinaugurado. Emblemático
o local, para aqueles que vivem sempre às margens da estupenda riqueza produzida, mas
nunca distribuída. Esses povos, antes de tudo, merecem respeito e dignidade. O Brasil
precisa urgentemente tornar-se verdadeiramente um País de todos. e a promoção de
políticas de igualdade racial é um caminho obrigatório para a conquista dessa meta.
A construção de um projeto de nação não será viabilizada se não considerarmos os
aspectos pluriétnicos e multiculturais do povo brasileiro. Nesse sentido, é preciso
levar em consideração as tradições seculares e o processo civilizatório de todos os
povos que formam este verdadeiro caldeirão da diversidade chamado Brasil.
Buscamos, entre outras coisas, acabar com situações como a vivida por mãe Nitinha, ao
tentar embarcar para Brasília, de onde partiria para o velório do papa. Lutamos para que
as crianças indígenas e negras tenham direito à vida. Para que a juventude negra não
seja exterminada. Para que nossos jogadores de futebol deixem de ser chamados de macaco,
aqui ou no exterior. E para que os ciganos deixem de ser conhecidos como ladrões de
criança e adivinhadores da sorte. Que todos sejam considerados efetivamente cidadãos.
Que a luta contra o racismo, o preconceito e a discriminação ao outro na sua maneira de
ser seja entendida pelo Estado brasileiro como um elemento central na política publica
nacional e, para além disso, considerada como política definitiva de Estado.

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Palco - Centro de
Convenções Ulysses Guimarães (em primeiro plano), um monumento à altura desse momento
histórico. Foto: Setur-DF |
Participarão da Conferência cerca de
1.200 delegados, eleitos nas conferências estaduais e consultas indígena e quilombola.
Além disso, convidados e observadores do Brasil e de diversas partes do mundo estarão
presentes no evento. São esperadas em Brasília cerca de 3.000 mil pessoas, que
certamente ampliarão as cores da capital federal, em seu inverno forrado pelo desabrochar
dos ipês - roxos, amarelos e brancos -, além de um arco-íris de cores típicas da
vegetação do cerrado. Um banquete da diversidade, onde serão levados à mesa os
conceitos de "igualdade racial", "identidade nacional" e
"democracia".
O evento terá ampla cobertura da mídia. Foram credenciados cerca de 150 profissionais de
imprensa para participar do evento. Jornalistas brasileiros já vacinados contra o modo
colonizador de pensar, vindos do Continente Africano e das Américas do Norte e Sul
estarão acompanhando de perto toda a movimentação.
Aqueles que não puderem estar em Brasília durante o evento não ficarão sem
informação. A abertura e o encerramento terão transmissão em tempo real pela internet
(veja abaixo). A Rabiobrás transmitirá ao vivo, diretamente do Centro de Convenções,
toda a movimentação do evento, via TV, rádio e internet. O importante neste instante é
pensarmos o Brasil que queremos, o Brasil que sonhamos. Acompanhe, participe. Esta é a
hora.
Este Destaque Seppir é dedicado a todos e
todas que lutaram secularmente e os que ainda lutam nos dias de hoje por esses nobres
ideais.
Conferência
será transmitida em tempo real
pela internet e pela Radiobrás
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A 1ª Conferência Nacional de Promoção
da Igualdade Racial será transmitida em tempo real pela internet no dia da abertura e no
encerramento. O trabalho será realizado por técnicos da área de TI (Tecnologia da
Informação) do Ministério da Saúde, que já utiliza a ferramenta para os eventos na
área de saúde. No ano passado o 1º Seminário de Saúde da População Negra utilizou a
mesma tecnologia. Os internautas devem acessar o site da Seppir (www.presidencia.gov.br/seppir).
Além disso, o sistema de rádio, TV e internet da Rabiobrás transmitirá diretamente do
Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília, a abertura e os principais
acontecimentos do evento. A rede pública produzirá matérias especiais para todo o
Brasil, diretamente do local da Conferência, durante os três dias do evento.
PROGRAMAÇÃO |
29 de junho
14h às 19h - Credenciamento |
30 de junho
9h - Credenciamento
15h30 - Ato de abertura e atividades culturais nacionais
17h - Mesa Redonda: Políticas de promoção da igualdade racial e de
ações afirmativas
20h - Mesa Redonda: Diálogo sobre políticas culturais na América e
no Caribe
22h - Exibição do filme Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo |
1o de julho
8h - Aprovação do Regimento Interno
9h - Mesa redonda : Identidade nacional, política e
legislação para a superação do racismo
11h15 - Painéis simultâneos:
. Políticas de Trabalho e Desenvolvimento Econômico
. Políticas de Educação
. Políticas de Saúde
. Políticas sobre Diversidade Cultural
. Políticas de Direitos Humanos e Segurança Pública
. Políticas para Comunidades Remanescentes de Quilombos
. Políticas para Povos Indígenas
. Políticas para Juventude
. Políticas para Mulheres
. Política Internacional
. Religiões de Matriz Africana
. Fortalecimento das Organizações Anti-Racismo
14h30 - Debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial
16h30 - Grupos de Trabalho de acordo com os eixos estruturantes da 1ª
Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial e Texto-base debatido nas
conferências estaduais |
2 de julho
8h - Plenária geral
18h - Encerramento
20h - Programação cultural |
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1a Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial
Data: 30 de junho a 2 de julho
Local: Centro de Convenções
Ulysses Guimarães, Setor de Divulgação Cultural, Eixo Monumental Oeste, Brasília, DF
Informações: 0800 642 15 25 |
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Aclamada pela crítica, Os Negros, peça de Genet, com direção
de Luiz Pilar, chega a Brasília para a Conferência |
Um dos mais importantes textos para teatro do francês Jean Genet, Os Negros,
estréia na próxima sexta-feira (1o) no teatro do CCBB (Centro Cultural Banco
do Brasil) de Brasília, com direção do multimídia Luiz Antonio Pilar. No elenco,
Sergio Menezes, Iléa Ferraz, Maurício Gonçalves, Maria Ceiça, Romeu Evaristo,
Patrícia Costa, Nívia Helen, Sarito Rodrigues, Deoclides Gouvêa, Jozé Araújo, Audri
da Anunciação, Lincoln Oliveira e Jorge Lucas.
Escrita em 1958, a peça é classificada por Genet como "uma clowneria", ou
seja, uma palhaçada, e Pilar reforça esse aspecto bem humorado. "Na verdade, Genet
não discute a questão racial. O autor discute o comportamento do ser humano sobre a
dominação. Segundo Genet é uma palhaçada a afirmativa de que uma etnia é mais
poderosa do que a outra", afirma o diretor.
Os Negros têm uma estrutura pouco convencional: não se trata de um texto com
começo, meio e fim. Os 13 atores negros dividem-se em dois grupos: os que aparecem como
eles mesmos e aqueles que aparecem mascarados para representar homens brancos.
"Esses brancos formam a corte, que inicia o espetáculo numa plataforma superior, de
onde assistem à encenação do assassinato de uma mulher branca. Cumprida essa parte,
inicia-se uma nova fase: a Rainha e sua Corte descem numa expedição primitiva e são
mortos pelos negros. Paralelamente a esses fatos, ocorre, nos bastidores, o julgamento e a
condenação de um negro traidor. Jean Genet mostra que o ocorrido serviu apenas para
distrair a atenção do público da cena principal", explica o diretor.
Maldito
Jean Genet (1910-1986), filho ilegítimo, passou boa parte de sua vida entre
reformatórios para jovens infratores e cadeias. Assumidamente homossexual, garoto de
programa e ladrão, conheceu a fama ao ter seu talento literário reconhecido por nomes
importantes da intelectualidade francesa como André Gide, Jean Cocteau e Jean-Paul Sarte,
que lhe dedicou um estudo, Saint Genet: Ator e Mártir, em que o considera o
protótipo do homem existencialista. Genet é considerado um dos expoentes do teatro do
absurdo. Em sua autobiografia, Diário de um Ladrão, afirma: "criminosos e
policiais são a emanação mais viril deste mundo".
Abençoado
Bacharel em direção de artes cênicas pela UniRio (Universidade do Rio de Janeiro), 44
anos, diretor de TV, cinema e teatro, Luiz Pilar conheceu o texto do escritor francês
ainda na faculdade, e, em 1985, encomendou uma tradução do texto de Os Negros para
seu projeto de encená-la.
Rica nos detalhes de cenografia, figurino e iluminação, a montagem de Pilar foi recebida
com entusiasmo pela crítica, desde sua estréia, em 2005, no Rio de Janeiro.
O espetáculo tem duração de uma hora e 40 minutos e classificação etária de 16 anos.
A entrada custa R$15.
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Os Negros
Data: de 1o a 7 de julho
Horário: 21h, exceto dia 3 (domingo), às 20h
Local: teatro do Centro Cultural
Banco do Brasil de Brasília, SCES,Trecho 2, Conjunto 22, Brasília, DF
Informações: (55 61) 3310-7087 |
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Desigualdade racial e metas de desenvolvimento
do milênio abrem semana histórica em Brasília |
As desigualdades raciais no Brasil são um entrave, entre tantos outros, para que o País
alcance os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conjunto de metas inclusivas
estabelecidas pela ONU (Organização das Nações Unidas), a serem cumpridas até 2015.
Para um debate sobre como superar a situação, nomes de peso se reúnem, nas próximas
terça (28) e quarta-feira (29), no painel internacional Ações Afirmativas e os
Objetivos do Milênio, que antecede a 1a Conferência Nacional de
Promoção da Igualdade Racial.
"Espero um amplo debate no painel, que contribua para cumprimento, por parte do
Brasil, dos Objetivos do Milênio, e que ele contribua para que cada vez mais a promoção
da igualdade racial seja considerada uma importante ferramenta no alcance dessas
metas", afirma a secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade
Racial, ministra Matilde Ribeiro, que compõe a mesa de abertura, dia 28, às 19h30
(confira a programação completa abaixo).
Clare Roberts, presidente da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) da OEA
(Organização dos Estados Americanos) e relator da recém-criada relatoria especial de
Afrodescendentes e contra a Discriminação Racial, participa do encontro, da Conferência
Nacional, e depois segue para uma viagem em que conhecerá de perto a realidade
brasileira. A relatoria a cargo de Roberts monitora e estimula políticas de promoção da
igualdade racial nos países membros da OEA e analisa denúncias de racismo e
discriminação.
Representantes de organizações internacionais também participam do painel. Laís
Abramo, diretora da OIT (Organização Internacional do Trabalho) no Brasil e Ana Falu,
diretora regional para o Brasil e Cone Sul do Unifem (Fundo das Nações Unidas para a
Mulher) estão entre os nomes confirmados.
Militantes do movimento negro e das causas indígenas do Continente Americano vão
discutir políticas públicas para os grupos discriminados. O mestre Abdias Nascimento,
pioneiro no debate sobre ações afirmativas no Brasil, do alto de seus 91 anos, participa
do painel, trazendo toda sua experiência na militância e na política.
Risco
Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio foram estabelecidos durante a Cúpula do
Milênio, realizada no ano 2000, em Nova York, com representantes de 191 países - foi a
maior reunião de dirigentes mundiais de todos os tempos. Na ocasião, foi aprovada a
Declaração do Milênio das Nações Unidas. Os Objetivos do Milênio foram endossados
por líderes mundiais, pelo Banco Mundial e pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).
Estabeleceram-se metas mínimas para o combate à pobreza, fome, doenças, analfabetismo,
degradação do meio ambiente e discriminação contra a mulher.
Os sinais de alerta para o Brasil, contudo, estão acesos. Segundo o Atlas Racial
Brasileiro, elaborado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento), em parceria com o Cedeplar (Centro de Desenvolvimento e Planejamento
Regional) da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), lançado em 2004, existem pontos
cruciais em que, mantidos os indicadores históricos de desigualdade racial das últimas
décadas, alguns Objetivos do Milênio podem deixar de ser cumpridos pelo Brasil no prazo
previsto.
No caso da mortalidade infantil, por exemplo, considerando a meta estabelecida - 16
óbitos de menores de um ano por mil nascidos vivos, até 2015 -, será preciso uma
redução de 30,2% na mortalidade infantil dos filhos de mulheres brancas e de 57,9% entre
os filhos de mulheres negras. Mantido o ritmo de queda na década de 1990 para a
mortalidade dos filhos de mães brancas, esse objetivo, para os brancos, deverá ser
atingido antes mesmo de 2015. No entanto, para os negros, a manutenção no ritmo de queda
no mesmo período será insuficiente para o alcance da meta.
PROGRAMAÇÃO |
28 de junho
19h30 - Abertura solene e programação cultural
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29 de junho
8h30 - Mesa 1: Cenário Internacional: A Diversidade Racial e os
Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
11h - Mesa 2: Proposições para as Políticas Públicas de Promoção da
Igualdade Racial
14h - Instrumentos Nacionais e Internacionais de Promoção da Igualdade
Racial |
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Painel internacional Ações Afirmativas e os Objetivos do Milênio
Data: 28 a 29 de junho
Horário: abertura dia 28, às 19h30. Dia 29, a partir das 8h30
Local: auditório da Finatec
(Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), Campus Universitário Darcy
Ribeiro da UnB (Universidade de Brasília), avenida L3 Norte, Asa Norte, Brasília, DF |
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"Povo do santo" encaminha propostas para Conferência
por Isabel Clavelin |

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Axé - A
batalhadora Leci Brandão (à direita), que será a porta-voz dos povos discriminados na
abertura da Conferência, na reunião com religiosos de matriz africano. |
Às vésperas da 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, pais e mães
de santo levaram à Brasília anseios pela liberdade de culto e urgência de ações
contra a intolerância religiosa, registrados na Reunião Política de Religiões de
Matriz Africana, que encerrou o ciclo de encontros organizados pela Seppir (Secretaria
Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) da Presidência da República
antes da Conferência. Recebidos pela secretária especial de Políticas de Promoção da
Igualdade Racial, ministra Matilde Ribeiro, cerca de 20 representantes de entidades
nacionais de religiões de matriz africana discutiram ações com o Ministério da
Educação, Ministério das Cidades, Secretaria Especial de Direitos Humanos e Fundação
Cultural Palmares, do MinC (Ministério da Cultura).
Mobilizados, parte do grupo também participou de audiência com o presidente da
República, Luiz Inácio Lula da Silva, solicitada pela Coordenação dos Movimentos
Sociais. No encontro, realizado no Palácio do Planalto, Lula foi presenteado pela
fundamental Leci Brandão, conselheira do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da
Igualdade Racial) e as iyalorixás Railda e Edelzuita com o tambor de Xangô, orixá que
representa da justiça.
Expectativa na Conferência
Filha de Oxum com Ogum, Vanda Machado, pertencente a um dos tradicionais terreiros de
Salvador, o Ilê Axé Opó Afonjá, destaca a importância desse momento de construção e
proposições de políticas para a promoção da igualdade e superação das desigualdades
raciais. "Depois de tantos anos, é necessário que digamos aquilo que está no nosso
coração. Já racionalizamos todo o tempo. Já pensamos muito em como encontrar brechas.
A gente entende que vá acontecer, quando a gente falar bem da gente mesmo. Ficamos
indignados quando a mídia fala mal das nossas vivências religiosas. Este momento acho
que será de procura e possibilidade de nos apresentarmos como somos, de falar de
solidariedade e ajuntamento. Isso não começou hoje, essa é a lição dos
terreiros", ensina.
O vice-presidente da Congregação de Defesa das Religiões Afro-brasileiras (CDRAB), o
Babalorixá Dyba de Yemanjá, denuncia para todo o Brasil as práticas contra os cultos de
matriz africana no Rio Grande do Sul como a tentativa de proibição de sacrifícios de
animais e a Lei do Silêncio. "Viemos de um Estado que é o mais racista do País e
precisamos sair do anonimato para brigar por uma lei que redunda com a Constituição
Federal. Foi importante porque mostramos que temos força e vontade própria. Temos
opinião sobre bioética, diminuição sobre a idade penal e sobre tudo o que rege a
humanidade. Fala-se muito que o Estado é laico, mas não se comporta como tal porque
favorece outros grupos religiosos", declara Babalorixá Dyba.
Para o religioso gaúcho, a religiosidade afro-brasileira precisa ser mais bem defendida e
vista como eixo de discussão. "Enquanto a comunidade negra não perceber que temos
uma religião que norteia a nossa vida e nossa visão de mundo, não vamos avançar em
termos de políticas de ação afirmativa", afirma.
Membro do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial), representando o
Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-brasileira, Everaldo Conceição Duarte
considera a Conferência uma oportunidade de articulação política.
"Acho que é um passo muito importante nos anseios da comunidade negra do Brasil
inteiro. Isso nos permite discutir cara a cara com o Estado as nossas reivindicações e
nossos problemas que vêm sendo sofridos há muito tempo e a sociedade toda sabe disso. Me
preocupo com a questão da religiosidade africana brasileira, porque foi o berço de toda
a nossa resistência até agora. Do que pese nossos sofrimentos, era nos terreiros que
encontrávamos um espaço para pensar e encontrar um amparo espiritual. Apesar de não
termos uma quantidade de religiosos numerosa, com a ajuda dos deuses vamos
conseguir", reflete Duarte.
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Religião, preconceito e solidariedade segundo a doce
Iyá Nitinha, uma guardiã da cultura do candomblé |

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Protegida -
Areonilthes da Conceição Chagas, a Iyá Nitinha: tradição e doçura de uma guardiã do
candomblé. Ao fundo, a pilastra de Xangô, o orixá da justiça. |
A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso VI, é clara: "é inviolável a
liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos
religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas
liturgias". Infelizmente não é essa a liberdade que desfrutam os praticantes de
religiões de matriz africana no Brasil. O preconceito contra eles é um dos mais
renitentes. Feiticeiros, enviados do demo, curandeiros, macumbeiros, entre outros termos,
sempre pejorativos, já fazem parte do cotidiano brasileiro. Recentemente um dos grandes
jornais do País estampou no alto de página do seu caderno mais importante a seguinte
manchete: "Lula leva até mãe de Santo para Roma". Muito se protestou.
Retratação, nem pensar.
Poucos conseguem ver a mesma manchete com um representante de outra religião. Esse quadro
deixa claro o preconceito arraigado na sociedade brasileira não só nos seguimentos menos
informados, mas também em parcelas importantes da nossa elite.
Parteira desde os 17 anos, até hoje, na casa dos 70 anos, se necessário, ela realiza
partos. A iyalorixá Areonilthes da Conceição Chagas, a doce e energética Iyá Nitinha
d'Oxum, uma das mais respeitadas sacerdotisas do terreiro Ilê Iyá Nassô, mais conhecido
como Casa-Branca do Engenho Velho, em Salvador, na Bahia, tombado pelo Iphan (Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), e legalmente reconhecido como o mais antigo
terreiro de candomblé ainda existente e de que se tem notícia no Brasil. Não por
coincidência, Iyá Nitinha é também uma das mais antigas iniciadas na religião dos
orixás no Brasil, que congrega todas as formas religiosas de matrizes africanas aqui
praticadas, que hoje, segundo dados do Censo Demográfico 1991-2000 do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), congrega cerca de 0,3 % da população
brasileira.
Iyá Nitinha foi convidada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para participar das
cerimônias fúnebres do papa João Paulo 2o. Por causa de contratempos na
chegada ao aeroporto Antonio Carlos Jobim (Galeão), no Rio de Janeiro, perdeu o vôo que
a levaria para Brasília, de onde seguiria para Roma. Ganhou mídia pelo fato. O que
muitos não sabem é que mãe Nitinha é uma das guardiãs das tradições religiosas
africanas preservadas até hoje no Brasil, mesmo diante de todos os preconceitos.
Nasceu em Salvador (BA), "há muito tempo atrás", segundo ela. À sua volta,
reúne gente de todas as classes sociais. Desde personalidades do mundo artístico - as
tais celebridades - até pessoas sem ter onde cair que batem à sua porta. Estudou
magistério e se formou professora. Olhando a movimentação em sua casa no bairro de
Miguel Couto, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, o Ilê Nossa Senhora das Candeias,
percebe-se que, antes de tudo, os terreiros são verdadeiros centros de assistência
social e espiritual. O terreiro comandado por mãe Nitinha, por exemplo, oferecerá curso
de alfabetização para jovens e adultos a partir do segundo semestre deste ano. A
sacerdotisa, cercada de filhos e filhas, conversou com o Destaque Seppir em uma terça-feira de maio. Em meio a consultas para
encaminhamentos de atividades, falou sobre sua vida, religião, preconceito e do Brasil.
Clique aqui e leia os principais trechos.
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A DESIGUALDADE EM NÚMEROS |
Evolução de negros no ensino fundamental é baixa |
Jovens de 18 anos ou mais com o ensino fundamental
concluído
(8ª série) , em áreas urbanas, em %
Brasil
Negros: 41,7
Brancos: 58,9
Alagoas tem os percentuais mais baixos
Negros, 29,3
Brancos, 46,9
Distrito Federal tem os melhores resultados
Negros: 58,9
Brancos: 76
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Fonte: Ipea (Instituto
de Pesquisas Econômicas Aplicadas), Radar 2005 , a partir da PNAD (Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios) 2003
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As paulistanas Airucy Bárbara Diogo Casimiro, de 18 anos, estudante de Direito (à
esquerda), e sua irmã, Amarílis Helena Diogo Casimiro, de 15 anos, estudante do ensino
médio, ilustram com seus sorrisos a foto ao lado da logomarca do Destaque Seppir.
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