POLÍTICA
EXTERNA |
VI
Discurso do Senhor Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso,
por ocasião do jantar oferecido à Senhora Presidenta da Irlanda, Mary Robinson.
Brasília, 29 de março de 1995.Em nome do povo brasileiro, dou as boas vindas a Vossa Excelência e à sua expressiva comitiva. O Brasil a recebe com a admiração e o respeito que o povo irlandês soube em nós inspirar por muitas razões, entre as quais destaco a força criativa e inovadora de sua cultura.
Peço-lhe ser portadora da mensagem de amizade que os brasileiros enviam aos cidadãos irlandeses.
A presença de Vossa Excelência entre nós é símbolo da amizade e a cooperação que nossos Governos têm desenvolvido desde o estabelecimento de nossas relações diplomáticas em 1975.
A Irlanda, como todos os países que integram a União Européia, ocupa posição relevante no quadro de nossa política externa . Além disso, chegam-nos as notícias de que a Irlanda encontra-se em fase particularmente positiva, não apenas pelo bom desempenho econômico, mas também em conseqüência do processo que culminou com a recente assinatura do "New Framework Agreement" sobre a questão irlandesa.
Sei o quanto Vossa Excelência contribuiu para esse processo. Essa contribuição enriquece uma biografia marcada pela competência política e pela militância em favor da liberdade, dos direitos humanos em geral e dos direitos da mulher em particular.
Em nome dos brasileiros, quero saudar esta nova etapa da história irlandesa e a coragem e a sabedoria dos estadistas que contribuíram para esse importante passo, que há de trazer benefícos imediatos para seu país, para a Europa e para todos os parceiros da Irlanda no mundo.
Presidenta,
Brasil e Irlanda compartilham muitos pontos de vista e interesses comuns na cena internacional. Admiramos as posições tradicionais da diplomacia irlandesa em defesa da paz, do desarmamento, do desenvolvimento e da democracia.
Compreendemos a necessidade de que se estabeleçam formas novas, ágeis, eficazes e efetivamente representativas para lidar com os desafios da paz e da segurança das nações.
A Irlanda tem demonstrado ser aliado importante dos países em desenvolvimento na luta por um sistema internacional mais equilibrado e estável, em que a liberdade econômica seja um instrumento de justiça e de impulso ao crescimento, e não uma forma de consolidação de privilégios.
Desejamos, brasileiros e irlandeses, que o processo de aproximação entre a União Européia e o Mercosul se consolide e nos conduza proximamente ao objetivo comum de um acordo de livre-comércio entre os dois grupos regionais.
Ambos lutamos pelo fortalecimento do sistema multilateral de intercâmbio comercial sob a égide da Organização Internacional do Comércio, para cuja criação nossos países deram uma expressiva contribuição.
Nossos países muito podem fazer para a superação de certas dificuldades que a globalização econômica tem apresentado. Entre elas, preocupa-me a questão dos movimentos especulativos que podem afetar os fluxos internacionais de investimentos produtivos, causando danos aos esforços de estabilização de várias nações desenvolvidas e em desenvolvimento.
Tenho sido enfático sobre a necessidade da adoção universal de medidas criativas e equilibradas de proteção contra as instabilidades que a economia globalizada acarreta e que podem prejudicar alguns de seus efeitos inegavelmente positivos.
Há, portanto, uma ampla agenda de interesses convergentes e de ideais comuns que justificam a atuação conjunta de nossos países na busca de um necessário aperfeiçoamento do sistema internacional.
Presidenta,
O Brasil que Vossa Excelência visita é um país que reencontrou o caminho do desenvolvimento e está em franco e acelerado processo de transformação. Espero que sua estada entre nós lhe permita avaliar o dinamismo de nossa atividade econômica e o potencial do nosso mercado e do nosso parque produtivo.
Somos, hoje, um país aberto ao mundo e uma democracia sólida, que se coloca a serviço do desenvolvimento social, dando voz e participação a todos os brasileiros.
Com uma presença virtualmente global em termos comerciais, o Brasil participa de um projeto de integração regional de largo alcance -- o MERCOSUL --, que dá uma nova dimensão ao nosso mercado, uma crescente intensidade ao nosso comércio exterior e um novo atrativo como pólo mundial de investimentos.
Pela tradição pacífica e consistente de sua política externa, por seu peso econômico, por sua presença internacional e regional, interessa muito ao Brasil participar das grandes decisões sobre questões mundiais e assim contribuir para a paz e o desenvolvimento da Humanidade.
Presidenta,
O Brasil e a Irlanda têm uma história recente de relações diplomáticas. Já contamos com um Embaixador residente em Dublin e esperamos que esse canal possa continuar a servir à aproximação entre os dois Governos.
Estamos construindo um patrimônio de realizações conjuntas, especialmente através da cooperação, quase sempre espontânea, entre universidades dos dois países. É do nosso interesse incentivar e ampliar essa cooperação, cujo efeito multiplicador sobre nossas relações é fácil apontar.
Também a presença de organizações humanitárias irlandesas no Brasil acrescenta um elemento de cooperação para o desenvolvimento social nessas relações. Temos um potencial já identificado de cooperação no campo da biotecnologia e em matéria de informática.
Nosso comércio ainda se situa em patamar modesto e, portanto, este primeiro contato de alto nível entre os dois Governos deve servir de catalisador para incentivar a iniciativa privada dos dois países a identificar as oportunidades que existem em um e outro mercado e as possibilidades de atuação conjunta em terceiros mercados, principalmente os mercados da União Européia e do Mercosul.
É importante que os nossos Governos estimulem os contatos empresariais, inclusive mediante a criação de Câmaras de Comércio Brasil-Irlanda.
O testemunho de Vossa Excelência sobre a pujança econômica brasileira e o o potencial do Brasil como mercado e como parceiro será de grande valor para que desta visita resulte um acréscimo do interesse do empresariado irlandês por parcerias com o Brasil.
É igualmente importante que nossos Governos negociem e implementem instrumentos jurídicos capazes de facilitar o nosso relacionamento e gerar compromissos e projetos conjuntos na área de cooperação técnica e educacional, promoção e proteção de investimentos e intercâmbio cultural.
Presidenta,
Ao recebê-la entre nós, quero saudar um gesto expressivo de aproximação entre os nossos países, que há de ter consequências positivas sobre o quadro geral do nosso relacionamento.
Nas conversas que mantivemos e por seu esforço pessoal na busca de soluções para as questões irlandesas, conheci seu compromisso com os ideais mais nobres da política e da vida democrática.
O fim da Guerra Fria, os avanços sem precedentes na ciência e na tecnologia, o processo irreversível de integração, aproximando nações que há séculos se confrontavam de forma estéril, são indícios claros de que podemos caminhar para um terceiro milênio de prosperidade, harmonia e paz. Nunca antes na História esta possibilidade foi tão concreta e plausível.
Sou otimista e espero, como brasileiro, contribuir para que este sonho de paz se realize num horizonte próximo. Como lembrava o genial poeta irlandês, William Butler Yeats:
"In dreams begins responsibility."
É com esse sentimento que convido todos os presentes a comigo brindarem pela crescente prosperidade e felicidade do povo irlandês, pela amizade que une a Irlanda e o Brasil, pelo futuro das nossas relações e pela saúde e ventura pessoais de Vossa Excelência.
Muito obrigado.