Projeto
Pensando o Direito
Pensando o Direito: democracia e processo legislativo
1. Democracia e elaboração
normativa
A democratização da
elaboração normativa no Brasil tem sido
limitada, de forma quase reducionista, ao rol de instrumentos
de participação popular direta previstos
na Constituição - iniciativa popular,
plebiscito e referendo. A relevância dessas
ferramentas, ainda subutilizadas, é inequívoca.
Não obstante, faz-se fundamental ampliar este
debate, tanto no que tange às possibilidades
de participação existentes, quanto no
que se refere à própria função
legislativa em uma democracia.
Atualmente, grande parte da elaboração
normativa é proveniente do Poder Executivo.
Por esse motivo, além do reforço aos
instrumentos constitucionais de participação
direta e do apoio a iniciativas de democratização
do processo legislativo no Congresso Nacional, é
importante também que se formem, no seio do
Poder Executivo, mecanismos de participação
social incisiva e sistemática. Além
da iniciativa legislativa e do direito de voz em audiências
públicas e consultas oficiais, o iter dos debates
de mérito, parte central do processo de elaboração
legal, deve ser acessível a todos.
Um governo que efetivamente crê
na democracia e em seu contínuo fortalecimento
tem como dever ampliar seus mecanismos de relacionamento
com a sociedade civil, seja no viés consultivo,
seja no deliberativo. A confiança em um Estado
democrático, portanto, deve fundar-se não
no isolamento dos governantes, mas em um exercício
cotidiano de diálogo, de interlocução
entre os ocupantes de cargos públicos e os
demais titulares da soberania popular. Somente com
esse exercício surgem os meios democráticos
pelos quais fins democráticos podem ser efetivamente
atingidos.
Sem descuidar das responsabilidades
inerentes aos representantes e titulares do poder
político, mas, simultaneamente, sem receios
de "estender" as esferas deliberativas governamentais
à participação popular, diversas
experiências nos últimos anos apontam
para importante evolução nesse aspecto.
Seja no âmbito do Poder Executivo, seja na própria
esfera de atuação do Poder Legislativo,
são perceptíveis os esforços
de abertura do processo de construção
legislativa à participação popular.
Nesse contexto de democratização
do processo de elaboração legislativa,
a Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério
da Justiça lançou, em meados de 2007,
o projeto Pensando o Direito, ciente de que, além
de satisfazer o dever governamental de dialogar com
todos os atores sociais, a participação
de agentes não-governamentais no processo de
elaboração normativa poderia representar
um incremento essencial à qualidade do seu
trabalho.
2. O papel da Secretaria de Assuntos
Legislativos do Ministério da Justiça
A Secretaria de Assuntos Legislativos
do Ministério da Justiça - SAL tem como
objetivo institucional a preservação
da ordem jurídica, dos direitos políticos
e das garantias constitucionais. Produz, em média,
mais de 500 pareceres e notas técnicas por
ano sobre os mais diversos temas jurídicos
de interesse de sua pasta, instruindo a elaboração
de novos textos normativos, a posição
do Governo no Congresso, bem como a sanção
ou veto presidencial.
Nesse esteio, além de desenvolver
proposições normativas (emendas constitucionais,
leis, decretos etc.), a SAL analisa todas as matérias
que tramitam no Congresso Nacional e que dizem respeito
à esfera de atuação do Ministério
da Justiça. São freqüentes para
a Secretaria os diálogos com parlamentares
e representantes da sociedade civil os mais diversos,
o acompanhamento de propostas legislativas e a busca
pela racionalidade legislativa, quer no que tange
ao respeito à ordem constitucional, quer no
que toca à defesa da proporcionalidade entre
meios e fins perseguidos - destacando-se, especialmente,
o trabalho na área de direito penal e segurança
pública.
Em seu trabalho cotidiano, no entanto,
a equipe da SAL nem sempre tem a possibilidade de
se inteirar das discussões jurídicas
de ponta desenvolvidas no meio acadêmico brasileiro.
Isso se deve, entre outros fatores, ao grande volume
e à variedade das demandas que chegam à
Secretaria. O contato com outros órgãos
do Governo Federal sempre foi privilegiado; o diálogo
entre a SAL e as instituições de ensino
e pesquisa em direito, em contrapartida, era quase
inexistente.
Tratava-se, em síntese, de
um quadro com contornos até certo ponto preocupantes:
o exercício de um papel relevante no âmbito
do processo legislativo, pelos mais diversos motivos,
precisava - e ainda precisa - de constante aprimoramento
qualitativo. O distanciamento institucional da SAL,
nesse sentido, entrava em confronto direto com o imprescindível
diálogo com aqueles que, por todo o território
nacional, dedicam-se à pesquisa jurídica
de ponta.
Do outro lado, a pesquisa jurídica
também hesitava em se voltar à análise
da elaboração normativa. Sem meios eficazes
para se colocar de modo relevante e qualificado no
processo legislativo, os raros estudos a eles afetos
entrincheiravam-se na própria academia. Não
se dava vazão, em suma, a essas pesquisas,
que já se ressentem da escassez de recursos
financeiros. A pouca tradição de pesquisas
empíricas e aplicadas na área do Direito,
especificamente no que diz respeito à proposição
de alterações legislativas com base
na sistematização de dados e informações
e na avaliação dos impactos sócio-econômico-jurídicos
dessas alterações, era alimentada pela
falta de diálogo com os órgãos
governamentais, criando, assim, um indesejável
círculo vicioso.
Para tentar romper com esse ciclo,
a SAL recorreu ao diálogo institucional franco
e aberto. A busca por parcerias sólidas foi
estimulada pela convicção de que o processo
legislativo cumpre seu papel público e democrático
somente se for qualificado pela participação
popular ampla e pelos debates ponderados. Para que
a deliberação legiferante seja pautada
por esses princípios, o Poder Público
e a academia devem se aproximar. Desse entendimento
e do reconhecimento de que a produção
de conhecimento jurídico vem aos poucos criando
raízes em pesquisas aplicadas e empíricas
surgiu o Projeto Pensando o Direito.
3. A primeira edição
do Projeto Pensando o Direito
Com o apoio irrestrito da Subchefia
de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, a SAL
estabeleceu uma parceria técnica com o Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento
- PNUD. Almejava-se, em resumo, potencializar o esforço
de democratização do processo de elaboração
normativa (por parte do Poder Executivo), abrindo
portas para a produção acadêmica
de excelência e qualificando a argumentação
jurídico-legislativa dos órgãos
governamentais envolvidos.
Foram eleitos, em um primeiro momento,
nove temas prioritários da agenda legislativa
governamental - seja por sua relevância, seja
por suas características polêmicas, seja
pela instrumentalidade dos resultados de uma eventual
pesquisa na área previamente definida. Os primeiros
temas foram Direito Ambiental, Direito do Consumidor,
Direitos Humanos, Direito Urbanístico, Federalismo,
Observatório do Judiciário, Penas Alternativas,
Propriedade Intelectual, Reforma Política e
Direito Eleitoral. Mediante processo de seleção
pública que contou com expressiva participação
(e propostas oriundas de todas as regiões do
país), a Secretaria firmou acordos com instituições
de ensino públicas e privadas para a realização
das pesquisas, com o intuito de manter relacionamento
contínuo durante a vigência do acordo
de cooperação técnica e de receber
produtos finais de pesquisa aptos a subsidiar o trabalho
de convencimento exercido pela SAL.
Desde cedo, importantes resultados
mediatos apareceram. O envio de 80 propostas demonstrou,
de início, o tamanho da demanda reprimida existente
no que tange à pesquisa jurídica, em
especial à pesquisa relacionada a aspectos
legislativos, indicando quão relevante é
o estabelecimento de canais institucionais participativos.
Ademais, a mera possibilidade de participação
ativa no processo de elaboração normativa
em todas as suas fases - não só na iniciativa,
mas fundamentalmente no debate sobre os projetos já
em trâmite, qualificando a argumentação
que circunda cada um dos temas em análise -
acarretou uma movimentação bastante
intensa na academia jurídica do país,
refletida na quantidade de propostas apresentadas
e nos trabalhos realizados em conjunto com a Secretaria.
No que tange, em específico,
aos nove temas da primeira edição do
Projeto Pensando o Direito, as benesses provenientes
do estabelecimento dessa relação perene
com as entidades de pesquisa são inegáveis.
Os ganhos comuns, assim esperamos, poderão
ser comprovados ao longo das próximas páginas.
Em diversas áreas temáticas,
a relação entre a SAL e as instituições
de ensino trouxe uma surpresa bastante positiva para
o Projeto: a formação de verdadeiras
redes de pesquisadores integrados em diferentes instituições,
movimentando, por vezes, dezenas de profissionais,
o que acabou por estimular e subsidiar também
a própria produção acadêmica
institucional, quer no âmbito da graduação,
quer no âmbito da pós-graduação.
Esse efeito multiplicador transformou aquele antigo
círculo vicioso de distanciamento e isolamento
em um círculo virtuoso de pesquisas aplicadas
e debate qualificado, tanto dentro da própria
academia quanto no diálogo entre esta e os
órgãos governamentais.
Além disso, e quiçá
ainda mais importante do que os ganhos pontuais para
os partícipes do projeto, faz-se fundamental
ressaltar o bom uso dos bens públicos gerados.
O conhecimento técnico-jurídico desenvolvido
ao longo das pesquisas é agora disponibilizado
à sociedade, seja mediante seminários
temáticos nacionais e internacionais, seja
mediante publicações como a que ora
se apresenta, em cumprimento do dever de prestar contas
àqueles a quem, em última instância,
os órgãos governamentais devem sempre
se reportar.
4. Uma pequena contribuição
à democratização do processo
de elaboração normativa brasileiro
Não se olvida que a academia
precisa discutir internamente sua estrutura democrática.
Sabe-se, e também não se duvida disso,
que grande parte da população brasileira
está alijada desse foro, sendo premente, pois,
o reforço geral de mecanismos de participação
direta. Medidas que vão desde consultas públicas
simples, passando por instrumentos participativos
como a realização de conferências
públicas nas mais variadas temáticas,
culminando, eventualmente, no uso sistemático
de instrumentos tecnológicos de participação
direta, esclarecida e imediata da população
nos debates governamentais, devem ser foco de uma
política estatal calcada em pilares democráticos.
Não se deve deixar de observar,
contudo, o importante avanço que a participação
qualificada da academia nesse processo significa,
ainda que no restrito âmbito da produção
legislativa brasileira. Da perspectiva dos órgãos
públicos, não são corriqueiros
os efeitos do contato com pesquisas de fôlego:
intensificam-se a profundidade e a precisão
das propostas normativas diretamente implicadas por
tais pesquisas, além de se promoverem reflexões
secundárias muito relevantes, que por vezes
desembocam em novos esforços legislativos.
Do viés social amplo, sublinhe-se que as leituras
governamentais de determinados estudos e seu manejo
pelos órgãos interessados e por parlamentares
impulsionam a publicização, de maneira
inequívoca, de discussões que muitas
vezes eram relegadas a segundo plano, ou se restringiam
a nichos de debate especializado.
Considerados seus limites orçamentários
e estruturais, o projeto Pensando o Direito é
ainda um passo bastante tímido; não
há dúvidas, contudo, de que se caminha
no rumo certo. A legitimidade do Estado Democrático
de Direito passa, dentre inúmeros outros vetores,
pelo reforço contínuo e indiscriminado
de seu pilar democrático, cabendo aos poderes
constituídos confiar na democracia. Publicizar
o exercício do poder público é,
sem sombra de dúvidas, concretizar o ideal
democrático.
Felipe de Paula - consultor PNUD junto à
SAL/MJ (2007)
Rafael Francisco Alves - consultor PNUD junto
à SAL/MJ (2008)
Daniel do Amaral Arbix - consultor PNUD junto
à SAL/MJ (2008)